Quem sou eu

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Apaixonada pela poesia e pela beleza que há na vida.

domingo, 2 de julho de 2017

Tenho tanto sentimento

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
Fernando Pessoa

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho. 
Cada momento mudei. 
Continuamente me estranho. 
Nunca me vi nem achei. 
De tanto ser, só tenho alma. 
Quem tem alma não tem calma. 
Quem vê é só o que vê, 
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo, 
Torno-me eles e não eu. 
Cada meu sonho ou desejo 
É do que nasce e não meu. 
Sou minha própria paisagem; 
Assisto à minha passagem, 
Diverso, móbil e só, 
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo 
Como páginas, meu ser. 
O que segue não prevendo, 
O que passou a esquecer. 
Noto à margem do que li 
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Desatino

Olho teu olho... que tenta não
Fitas-me
Bolas de gelo... teus olhos
Quentes por dentro
Escalvas-me
Mas renego
Evito farejar-te
Pois, se o faço,
Inalo teu cheiro másculo
E desatino
Menina pedindo colo
Mãos por entre os cabelos
Beijo estalado
E cansaço às seis da manhã.

Milena Guimarães

sábado, 19 de novembro de 2016

Seis Sentidos

A tua boca me seduz
os lábios penetram,
degustam, mastigam
trituram, sentem e engole.
A tua fala mansa
vai vibrando como um canto,
por um momento,
um acalanto;
E os teus movimentos,
vão dançando um balé sereno,
uma arte, um aceno, lento...
As tuas mãos, olhos, ouvidos, boca,
nuca, vão me atraindo
Despertando, adormecido
me acolhendo, acalmando os meus sentidos...

Claudia Monteiro

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A beleza dos versos impressos em livro
- serena beleza com algo de eternidade -
Antes que venha conturbá-los a voz das declamadoras.
Ali repousam eles, misteriosos cântaros,
Nas suas frágeis prateleiras de vidro...
Ali repousam eles, imóveis e silenciosos.
Mas não mudos e iguais como esses mortos
                                                             [em suas tumbas.
Têm, cada um, timbre diverso de silêncio...
Só tua alma distingue seus diferentes passos,
Quando o único rumor em teu quarto
É quando voltas, de alma suspensa - mais uma página
Do livro... Mas um verso fere o teu peito como
                                                           [a espada de um anjo.
E ficas, como se tivesses feito, sem querer, um milagre...
Oh! que revoada, que revoada de asas!

Mario Quintana


segunda-feira, 28 de abril de 2014

Por quem merece amor

Te perturba esse amor? 
Amor de juventude 
Meu amor é amor de virtude.

Te perturba esse amor? 
Sem máscaras por trás 
Meu amor é uma arte de paz .

Te perturba esse amor? 
Amor de humanidade 
Meu amor é amor de verdade.

Te perturba esse amor? 
Com todos ao redor 
Meu amor é uma arte maior. 

Meu amor, minha prenda encantada
Minha eterna morada 
Meu espaço sem fim.

Meu amor não aceita fronteira 
Como a primavera 
Não escolhe jardim.

Meu amor, não é amor de mercado 
Esse amor tão sangrado 
Não se tem pra lucrar..

Meu amor é tudo quanto tenho 
E se eu vendo ou empenho 
Para que respirar?

¿Te molesta mi amor? 
Mi amor de juventud 
Y mi amor es un arte en virtud 

¿Te molesta mi amor? 
Mi amor sin antifaz 
Y mi amor es un arte de paz. 

¿Te molesta mi amor? 
Mi amor de humanidad 
Y mi amor es un arte en su edad 

¿te molesta mi amor? 
Mi amor de surtidor 
Y mi amor es un arte mayor. 

Meu amor, alivia e acalma, 
É o remédio da alma, 
Pra quem quer se curar.

Meu amor é humilde é singelo 
E o destino mais belo 
É torná-lo maior.

Meu amor, o mais apaixonado, 
Pelo injustiçado, 
Pelo mais sofredor.

Meu amor abre o peito pra morte, 
E se entrega pra sorte, 
Por um tempo melhor.

Meu amor,esse amor destemido, 
Arde em fogo infinito, 
Por quem merece amor.


Compositor: Silvio Rodrigues (Por quien merece amor)
Versão: Miltinho
Interpretação: MPB4
Acesse para ouvir: https://www.youtube.com/watch?v=OpnkSspc77g

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Uma noite, noites
Noites em claro não matam ninguém
Mas é claro perdi a razão
Gritei seu nome por toda parte
Do edifício em vão
Quebrei vidraças da casa
Estilhaços de vidro espatifados no chão
Risquei paredes do apartamento
Com frases roucas de paixão
E dentro da escuridão do quarto
Eu rasguei no pente seu retrato
Minha alma ardia, meu bem
Volte cedo
Antes que acenda a luz do dia
Apague meu desejo
Num beijo bem bom
Meu bem volte cedo
Volte bem cedo

Reinaldo Gama